Nota Pastoral do nosso Bispo sobre as Festas Populares



1. As festas da nossa terra

          De maio a outubro as nossas aldeias realizam a maior parte das festas da terra, quase sempre sob a invocação de Nossa Senhora ou dos santos padroeiros, embora o dia da festa litúrgica possa ocorrer noutra época do ano. Mas, porque muitos números da festa se realizam na rua ou se deseja a presença dos emigrantes, marcam-se para os dias mais longos e solarengos e para a época de férias. Por vezes, há festas em aldeias vizinhas, que procuram atrair o maior número de pessoas com a atuação de artistas de luxo e fogos de artifício dispendiosos. Frequentemente as receitas não chegam para pagar as despesas, o que desmotiva futuras comissões de festas.
          Dado que muitas comissões usam o nome das paróquias e dos santos, nos seus cartazes, denominando as festas de religiosas, que por vezes mencionam apenas a missa e a procissão num cantinho e estampam a imagem religiosa, ao lado de muitas diversões profanas, quase todas as dioceses têm publicado orientações sobre o papel da comunidade paroquial nas festas populares. Também a diocese de Beja o fez, alguns anos atrás. Mas é sempre necessário relembrar alguns princípios, com o pedido de, com paciência e muita persistência os ir implantando, de modo que a piedade popular se purifique de alguns aspetos menos edificantes e construtivos de uma sã convivência humana.
          Não se pede aos cristãos que se ponham de parte do ambiente de festa, mas que se responsabilizem por aquilo que é da sua competência. Daí que seria bom que a comunidade paroquial assumisse a organização dos atos especificamente religiosos e uma outra comissão de festas se responsabilizasse pelos outros, sobretudo quando estes pouco têm a ver com a devoção popular e implicam custos exagerados para o meio.
          Isto não significa que as duas partes estejam de costas voltadas e entrem em competição, até mesmo nos horários, que devem ser combinados e coordenados.


2. Os custos e as dívidas das festas

          Devido à crise que o país atravessa e muitos dos nossos recursos deveriam ser utilizados em ações de solidariedade e de partilha fraterna, recomendo aos diocesanos para ajudarem a moderar alguns projetos festivos muito dispendiosos.
          Permitam que toque num aspeto económico nem sempre tido em conta. Refiro-me ao pagamento de impostos sobre os movimentos financeiros das festas. Alguns artistas e fornecedores nem sempre passam as faturas e recibos legais. Por isso a Comissão da Fábrica da igreja paroquial deve estar atenta, para não colaborar com ilegalidades. Daí o conselho de a comunidade paroquial apenas se responsabilizar pelos atos religiosos, separando as águas do religioso e do profano, quando isso for possível.
          No caso de haver uma única comissão de festas, credenciada pela diocese, é obrigatória a apresentação de contas à comissão fabriqueira, que deverá verificar se foram cumpridos os deveres cívicos.
          Com estas advertências não pretendo ser desmancha prazeres ou causar medo a quem, com muito esforço e dedicação, organiza as festas e contribui para a alegria do seu povo e para a sã convivência e construção da comunidade à volta dos santos patronos ou de Nossa Senhora, padroeira de Portugal e também de muitas das nossas terras. Ela que contribuiu para a alegria de todos os convidados nas bodas de Canã, advertindo Jesus da falta de vinho, seja também para nós modelo da atenção às necessidades dos nossos conterrâneos e visitantes, para que todos possam participar na festa.


† António Vitalino, Bispo de Beja

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